Crescimento dos veículos elétricos leva nova demanda para as assembleias e exige planejamento, segurança e definição clara de responsabilidades entre moradores e condomínio

O carro elétrico já começou a mudar não apenas a paisagem das ruas, mas também a rotina das garagens dos condomínios na região. Com o aumento da presença desses veículos, uma nova questão passou a fazer parte do dia a dia de síndicos e moradores: quem paga pela instalação do carregador e pela adaptação da estrutura elétrica? Quanto instalar?
A resposta não é tão simples quanto parece. Isso porque o veículo e a vaga podem ser de uso individual, mas a infraestrutura necessária para levar energia até o ponto de recarga pode envolver áreas, equipamentos e sistemas que pertencem ao condomínio.
Para o especialista Marcos Velozo, o primeiro passo é entender que a instalação de um carregador não pode ser tratada como a simples colocação de uma tomada na garagem.
“Antes de pensar no carregador, o condomínio precisa avaliar a capacidade da rede elétrica, a segurança da instalação e o impacto que novos pontos de recarga podem provocar no sistema. É uma mudança que precisa ser planejada, e não feita de forma individual e improvisada”.
Em condomínios mais antigos, o desafio pode ser ainda maior. A rede elétrica projetada há décadas pode não ter capacidade para atender vários veículos carregando simultaneamente. Dependendo da situação, podem ser necessárias alterações no cabeamento, instalação de dispositivos de proteção, adequações no quadro elétrico e até solicitação de aumento de carga junto à concessionária.
O que o morador deve fazer
A recomendação é que o morador não contrate por conta própria a instalação de um carregador na garagem sem antes comunicar o condomínio.
O primeiro passo deve ser procurar o síndico e apresentar a demanda. A partir daí o condomínio pode solicitar uma avaliação técnica para verificar se a estrutura elétrica suporta o equipamento e quais adaptações serão necessárias.
Também é importante definir previamente como será feita a medição da energia utilizada. Afinal, o consumo para abastecer um carro elétrico é individual e deve ser identificado para que não seja indevidamente dividido entre todos os moradores.
“É importante separar duas questões: a infraestrutura coletiva necessária para viabilizar os carregadores e o consumo individual de cada veículo. O condomínio precisa estabelecer regras claras para evitar conflitos futuros e garantir que quem utiliza o carregador arque com a energia efetivamente consumida”, explica Marcos Velozo.
Quem paga a conta
Esse é um dos principais pontos que precisam ser discutidos e formalizados pelo condomínio.
Se forem necessárias obras ou adequações na infraestrutura coletiva, a definição sobre o custeio deve considerar a natureza da intervenção, as regras do condomínio e a aprovação adequada pelos moradores. Já a energia consumida pelo veículo deve ser individualizada sempre que possível. Assim como acontece em muitos empreendimentos com a conta de água.
A solução passa, portanto, menos pela disputa entre “quem usa” e “quem não usa” e mais pela organização. O condomínio precisa saber exatamente qual investimento está sendo feito para atender a uma necessidade coletiva e qual despesa corresponde exclusivamente ao usuário do veículo.
O papel do síndico
Para o síndico, a chegada dos carros elétricos é também uma oportunidade de criar regras antes que o problema apareça. A orientação é levar o tema para discussão em assembleia, buscar avaliação de profissional habilitado, verificar a capacidade elétrica do empreendimento, estabelecer critérios para instalação dos carregadores e definir como serão calculados e cobrados os consumos.
“Quanto mais cedo o condomínio discutir o assunto, menor a chance de transformar uma inovação tecnológica em um conflito entre vizinhos. O ideal é criar uma regra que seja segura, transparente e que possa atender também aos próximos moradores que venham a ter um veículo elétrico”, afirma Marcos Velozo.
A tendência é que o número de carros elétricos nas garagens aumente nos próximos anos. E, com eles, também devem crescer as demandas por pontos de recarga.
A garagem do condomínio, que durante décadas serviu apenas para estacionar carros, começa a ganhar uma nova função: também será espaço para abastecer o veículo. Cabe aos condomínios se prepararem para essa transformação.



